Mãos ao ar

Blogue de discussão desportiva. Qualquer semelhança entre este blogue e uma fonte de informação credível é pura coincidência e não foi minimamente prevista pelos seus autores. Desde já nos penitenciamos se, acidentalmente, relatarmos uma informação com um fundo de verdade. Não era, nem é, nossa intenção.

Segunda-feira, Julho 14, 2008

Dani

Do belíssimo trabalho de "O Jogo" sobre o departamento de recrutamento do Sporting, e concretamente sobre Aurélio Pereira, respigo excelente definição do que foi Dani: tinha paixão pelo jogo, mas não pela profissão.

Aqui.

Quinta-feira, Junho 26, 2008

Sete vidas


Chegamos a casa de Carlos Queiroz.
Helmut, o enorme pastor-alemão, salta o portão e vem lamber-me a cara. Para evitar mal-entendidos, permitam-me que vos explique que Helmut era um cão e não um daqueles senhores que apascenta cabras, nascido na Baviera.
Dizem que, há muitos anos, Carlos Queiroz chegou a ser humilde. Acredito cegamente. Mas só o conheci na fase em que ele se portava como um lorde inglês, aparentemente envergonhado da piolheira onde tinha de exercer funções. Tudo nele transmitia um incómodo expresso numa pergunta nunca formulada, mas pairando sempre no horizonte: teria o fornecimento de água corrente começado apenas na véspera da sua chegada a Portugal?
Dessa reunião pouco restou de relevante. É verdade que, a dado ponto, o professor retirou as calças, mas eu e o Sancho imaginámos que fosse normal.
[Nós]: Mas, ó professor, tem mesmo de estar em cuecas enquanto falamos?
[Ele]: Sim, sim. Isto usa-se muito no estrangeiro.
[Nós]: Então, está bem. Se é assim que se faz lá fora... Mas, ó professor, tem mesmo de tirar os sapatos e as meias também?
[Ele]: Claro. Isto usa-se muito no estrangeiro.
[Nós]: Hum... Então, está bem.
Até ao dia da minha morte, manterei em segredo o desfecho dessa reunião. Mas sempre vos digo que ou o professor nos aldabrou, ou o estrangeiro é muito diferente daqueles postais que a minha prima me manda de França. *
Da selecção foi corrido sem honra para o Sporting. Em Alvalade, honra lhe seja feita, criou uma das melhores equipas do passado recente do clube. Ganhou uma Taça de Portugal – muito para um clube esfomeado de títulos, pouco para o potencial do conjunto de jogadores colocados à sua disposição. Saiu. Sem oportunidades internas, fez como o Saramago, que se pisgou para Laçarote ou coisa assim, e partiu para o desterro.
Levou na mala a vontade de um dia regressar pela porta grande e, em Manchester, encontrou por fim condições para ganhar qualquer coisa. Ali teve também a premonição que o atormenta: se ficasse tempo suficiente, poderia um dia substituir Alex Ferguson. A natureza das suas funções actuais é motivo de discussão: para alguns… quer-se dizer, para o José Manuel Delgado, ele é o estratega por detrás dos êxitos do Manchester United; para a generalidade da população, ele recolhe os pinos e as bolas no final dos treinos e distribui os coletes amarelos e azuis antes da peladinha.
Como o proverbial hamster pedalando continuamente na roda, Queiroz vive do sonho de um dia suceder a Ferguson. Puro engano. Tal como o hamster nunca terá velocidade para superar a rotação do brinquedo, Queiroz também não conseguirá nunca mostrar que é o melhor candidato para o cargo. Mas nem o hamster, nem o professor, têm noção da limitação.
É por isso que acredito que Queiroz, se for convidado, dirá “não” à selecção. A sua quimera prossegue.
E o técnico dirá a Madail o que disse a Luís Filipe Vieira há algumas semanas:
- Sair agora? Não vê que estou quase a ultrapassar a roda?

[*Recordo aos advogados do professor Queiroz que isto é um blogue ficcional. Evidentemente, como os leitores depreenderam, nós nunca pensámos que o professor nos tivesse aldabrado!]

Terça-feira, Junho 24, 2008

Problemas de basculação


Num passado não muito longínquo, entretive-me a pesquisar números de utentes femininas da lista telefónica, tratando depois de lhes ligar. À voz inquisitória que ecoava do outro lado da linha de cobre, respondia, com um murmúrio digno do Hannibal Lecter, soprando arrastadamente as mesmas palavras: “Ireeeene, sou o teu escraaaaavo!”
Hoje, com o avanço da ciência médica, os neurologistas estão em condições de assegurar duas verdades fundamentais sobre o cérebro humano. Em primeiro lugar, há cinco lobos essenciais neste órgão: o lobo parietal, o lobo occipital, o lobo temporal, o lobo frontal e o Luís Freitas Lobo. Em segundo lugar, os neurologistas reconhecem também que, ao escutar a expressão arrastada “sou o teu escraaaaavo”, as mulheres, em vez de rejubilarem pela oferta dos meus préstimos, desatam a gritar disparatadamente pela guarda. As histéricas!
Reconheço sem esforço que agi incorrectamente e tive até oportunidade de o dizer ao meu terapeuta, ao polícia que me prendeu, ao senhor juiz e ao senhor da minha cela que insiste em chamar-me número 8. Infelizmente, há gente que não quer perceber que o que dizemos não é necessariamente o que queremos. É esse o tema da intervenção de hoje.
Admitamos como hipótese de trabalho que é possível extrapolar a atitude de algumas selecções do Euro’2008 para o futebol português e para os comportamentos vigentes de alguns clubes. A ser verdade, não haveria selecção tão parecida com o Sporting como a da Holanda. Nestas competições, a Holanda brilha intensamente contra equipas de vão de escada, fazendo crescer água na boca dos adeptos para os testes mais importantes. Protagoniza invariavelmente os melhores momentos da competição e estabelece laços de empatia inesquecíveis com milhares de adeptos, como é exemplo o agora célebre cântico: “Ik ben de enige persoon die het weet omdat ik niet thuis blijf.” (só eu sei porque não fico em casa!” Escusam de protestar porque usei o fidedigno Babel Fish para fazer a tradução). Na altura decisiva, porém, os holandeses falham – uma cruz que me habituei a carregar.
Ao mesmo tempo, se o FC Porto olhasse para o seu reflexo no espelho, seguramente veria nele a imagem da selecção alemã. Não é particularmente brilhante, nem bonita, nem leal, nem bem-cheirosa, nem terá nunca nos seus quadros os jogadores mais entusiasmantes da prova. Mas é na eficácia do seu conjunto, na frieza e determinação das suas peças e no acerto mecânico dos seus homens que se forja uma cultura de vitórias. Como qualquer pessoa que já olhou mais de dois segundos para o Bruno Alves sabe, o FC Porto, e a Alemanha, não são bonitos. Mas ganham. E nem sempre com batota.
Resta o terceiro reflexo. O do Benfica. Não encontro nada mais parecido do que a selecção espanhola. Para quem, como eu, trabalha com espanhóis, é já habitual registar que, no mês que antecede cada competição, os espanhóis incham. Não é metáfora. Incham mesmo de ar, seguros de que o mundo será deles, que a rainha de Espanha é mais bem feita do que a Isabel Figueira, que toda a gente os teme, que coisas como o Iniesta são os melhores médios-ala do planeta ou que o Almodôvar não faz filmes de merda.
No remanso do estágio, os jogadores espanhóis são feras, rosnam assustadoramente e prometem mundo e fundos. Em competição, porém, a pressão acumula-se. As pernas tremem. O estômago ronca com aquilo que os ingleses chamam "dores de borboleta". E os espanhóis, que ganharam o seu único troféu sob o olhar aprovador do general Franco (uma espécie de Salazar, mas com botas de marca), sucumbem, guardando invariavelmente mil-e-uma críticas para árbitros, sistemas, adversários e para o destino.
Como na minha história, ao telefone, os espanhóis, e o Benfica, também são valentões…

Quarta-feira, Junho 18, 2008

Carlos Martins

Acabo de chegar da ilha do Corvo, nos Açores, onde descobri o valor da polissemia da língua portuguesa. Aparentemente, uma “ministra”, que para o resto do país é uma politica eleita para um governo, ali é o móvel de quarto de cama onde se guarda o penico. Voltarei ao tema mais abaixo.
Suspeito que se uma equipa de neurocirurgiões analisasse ao pormenor o cérebro do Carlos Martins não encontraria nada de especial. Se os lóbulos do bolbo raquidiano são a zona do cérebro especializada em gerir as emoções e a agressividade, os do Carlos terão quatro ou cinco vezes o tamanho normal e, provavelmente, o bolbo já cortou relações com o raquidiano há alguns anos. Tirando isso, porém, a explicação para o desequilíbrio do artista não é morfológica. É ambiental.
O Carlos chegou ao Sporting com o rótulo de craque. À partida, isso não o distinguiria dos vinte ou trinta miúdos que ali chegaram nas mesmas condições durante a década de 1990. Simplesmente, o Carlos foi dado como craque aos 11 anos. Para uns, isso seria um fardo suportável. Para o Carlos, essa responsabilidade tornou-o naquilo que os especialistas chamam um maluquinho irrecuperável.
Talvez se recordem que, pela transferência do Oliveira do Hospital para Alvalade, o Sporting teve de compensar o clube do distrito de Coimbra com um jogo particular realizado pelos seniores de então. Nessa tarde memorável, aquele dez réis de gente deu o pontapé de saída perante a euforia das bancadas, que vitoriaram loucamente o futuro craque da terra.
Ao longo do seu percurso de formação, estimulado pelos contínuos elogios à sua (reconheçamos) ímpar capacidade técnica, o Carlos desenvolveu um forte sentido daquilo a que ele próprio designa por carisma e a que o resto do mundo chama esquizofrenia aguda.
Em função disso, não concebe uma decisão técnica que lhe seja desfavorável. Mastiga demoradamente cada desilusão como se ela escondesse uma marosca inconfessável para o tramar. Interioriza, sem processar, essa frustração e, quando entra em campo, fá-lo com a avidez dos cavalos de corrida, pronto a resolver um jogo nos primeiros três minutos. Aos quinze, está invariavelmente de língua de fora; aos trinta, está esbaforido e de olhos esbugalhados; aos cinquenta, costuma ser expulso por agressão bárbara.
No fundo, necessita de provar à bancada, em cada lance, que merece estar ali e que aquele é o seu lugar. Mesmo que isso implique lançar-se num carrinho louco, a caminho da linha de fundo [vide Sporting-Moreirense], para tentar centrar uma bola impossível e terminar o lance com o ombro deslocado.
Dir-me-ão os senhores que está ali um craque em potência. É o problema da polissemia na língua portuguesa, já expresso no exemplo da ministra: para o Benfica, o Carlos tanto pode de facto vir a ser um craque (jogador de excepção) como um craque (queda abrupta de cotação).
Eu aposto na segunda.

Quarta-feira, Maio 28, 2008

Próximo post: 18 de Junho

Uma vez que pelo menos uma empresa portuguesa desconhece que a abolição da escravatura foi proclamada em 1869;
uma vez que Cronos, deus do Tempo, se recusa a estender o dia por mais de 24 horas;
uma vez que o meu cardiologista me proibe de beber mais de seis cafés por dia;
e uma vez que a Zazá, da Produção, me deu uma estalada quando lhe pedi para ver o decote, venho por este meio informar que só volto a postar a 18 de Junho, data em que termina o projecto para o qual cometi a incrível estupidez de me fazer voluntário (e de aceitar com um sorriso nos lábios, como se tivesse uma doença mental incurável).

Lamento muito. Sei que pagam a assinatura deste serviço e merecem mais, mas a vida é feita de desilusões. Até lá, sugiro a leitura apaixonada do "Mundo Esotérico", um blogue em boa hora fundado para dar resposta aos dilemas que, desde o alvor da humanidade, intrigam a espécie humana e, pontualmente, a espécie bovina.
Recomendo particularmente "Invocação aos Gnomos", texto que coloca os pontos nos "ii" sobre um tema que bem precisava de clarificação, sobretudo para pôr ordem nessa gente - eles sabem bem quem são - que desata a fazer amizade, e até o amor, com gnomos não invocados ou, pior, invocados com meia dúzia de salamaleques e sem cerimonial nenhum.
Bem hajam.

Segunda-feira, Maio 12, 2008

Não é um génio da oratória. Lá isso, não é!

«Senti que, se marcássemos um golo, ganharíamos o jogo»
Cristiano Ronaldo, depois do Wigan-0 Man. United-2

Sábado, Maio 10, 2008

Um génio na Travessa da Queimada

«Acções estáveis
O anúncio das penas aplicadas pela Comissão Disciplinar da Liga ao FC Porto e a Pinto da Costa, presidente da SAD, não teve quaisquer reflexos em termos da cotação dos títulos do emblema azul e branco na Bolsa. É um facto que as sanções foram divulgadas numa altura em que o mercado bolsista já havia encerrado (...)»

"A Bola", 10.05.08, pg. 5

De facto, agora que penso nisso, quando o mercado bolsista já encerrou, as cotações não costumam cair...

Quinta-feira, Maio 08, 2008

Trampolim evangélico


Está oficialmente inaugurada uma linha de evolução profissional: da faculdade para o Sindicato dos Jogadores; do Sindicato dos Jogadores para os corpos técnicos do Benfica. Dos corpos técnicos do Benfica para o centro de emprego.

Foi assim com Carraça. Será assim com este marmelo?

Segunda-feira, Abril 28, 2008

Pronto!



Pronto! Mantém o sorriso. Mantém a postura. Clic.
Já não mexe mais!

Terça-feira, Abril 22, 2008

Paulo Bento como o velho Tosh



"À segunda-feira, penso sempre em mudar dez jogadores; à terça, já só são sete ou oito; às quintas, reduzi para quatro; às sextas, são apenas dois; ao sábado, porém, já penso que têm de jogar os mesmos 11 cabrões que meti no jogo anterior."
John Toshack, ex-treinador do Grande Sporting e de mais dúzia de agremiações de bairro, como o Real Madrid.
Imagino que seja isto que passa pela cabeça do treinador do Sporting todas as semanas...

Domingo, Abril 20, 2008

Parasitas!

Quarta-feira, Abril 16, 2008

1, 2, 3, 4, 5 açoites



Não tenho palavras. Sobretudo porque estou afónico. Mas mesmo que não estivesse, continuaria sem palavras...

Preocupado

A poucas horas do derby, estou francamente apreensivo: nem pensem que vou fazer como no ano passado e me vou tornar sócio do FC Porto só para ter bilhetes para a final.

Segunda-feira, Abril 14, 2008

Em Alvalade, não aprendeste isto, de certeza, ó perneta

Quarta-feira, Abril 02, 2008

O Velho Max



(crónica enviada da estranja. Que é para não dizerem que o Bulhão não escreve. E que se furta às responsabilidades. E mais não sei o quê. Isto é que é empenho, hein? Ou isso ou já vinha escrito de Lisboa... Mas é significativo, de qualquer maneira)

Segundo o “News of the World”, Max Mosley, o septuagenário presidente da Federação Internacional de Automobilismo, foi fotografado e filmado durante uma orgia com cinco prostitutas, dedicada excepcionalmente à temática do nazismo e do sofrimento nos campos de concentração. A maior parte das pessoas reagiu com evidente repulsa à divulgação das actividades do pilhanas do velho, mas estou certo que Max Mosley não aprecia essas pessoas. Para outros, como eu, há uma pergunta mais evidente do que todas as outras: CINCO?!? Aos 72 anos, Max Mosley entretém CINCO prostitutas?
Há semanas, a comunidade portuguesa dedicada ao estudo da história lançou perguntas recorrentes, que ecoam sem resposta há gerações: por que diabo não fazem os portugueses recriações dos episódios mais célebres da história do país, como eu vejo aqui fazer nos EUA? Por que diabo não vestem as sandálias e um roupão de banho e não vão recriar a batalha de Aljubarrota? Haverá forma mais bonita de comemorar a nossa história do que nos embrulharmos num lençol de linho e nos fazemos entalar dramaticamente na porta do castelo de São Jorge? Ou pintarmos os lábios de bâton e imitarmos o infante Dom Henrique? Evidentemente, a Associação Portuguesa dos Amigos dos Castelos tem a amabilidade de lembrar que há muitos milhares de pessoas que fazem recriações históricas e só uma fracção delas prefere vestir roupa de mulher, mas creio que chegou a hora de fazermos mais e melhor.
É com pena que registo que é, uma vez mais, da sisuda e sombria Inglaterra que chegam exemplos das melhores práticas. À falta de melhores ideias, Max Mosley lançou-se na recriação do holocausto com criatividade. Fê-lo à custa do seu esforço, como é natural (aliás, quero acreditar que ficou às portas da morte por causa do esforço. Caso contrário, há algo terrivelmente frustrante nesta história). Há, porém, espaço para melhoramentos.
Eu não tenho, como Max, o benefício da experiência que só se adquire depois de participar em dezenas de orgias, até porque a minha mulher prefere que eu fique em casa aos fins-de-semana e os chicotes de cabedal sempre me fizeram bolhas na palma da mão. Mas, enfim, há aqui coisas que me fazem espécie. Afinal, o senhor paga 1.500 libras para ser vergastado no lombo enquanto escuta o revigorante grito de ordem: Schnell, schnell. É verdade que eu tenho sido poucas vezes vergastado no lombo (embora imagine que cada um receba as que merece), mas tenho ideia que a vergastada é francamente sobrevalorizada. Eu, pelo menos, não gosto assim muito. É que a vergastada, se bem orientada (e temos todos os motivos para acreditar que estas foram), ainda aleija.
A parte das máscaras ainda vá que não vá. É giro, entretém e tal, e há poucos que possam dizer que nunca tiveram uma máscara de veludo afivelada à bruta na fronha. Aos pontapés na genitália também não digo que não. É saudável. Afinal, eu também fui escuteiro.
Agora gritarem-me aos ouvidos? Mandarem-me perdigotos para os tímpanos? Tenham lá paciência, mas berros não. Isso, do holocausto, até vá. Agora, para crueldades, não contem comigo!

Elogio do esfíncter


Não há absolutamente nada de errado em frequentar um colégio em regime de internato. Hoje, com o benefício da experiência, posso garantir que foi isso que fez de mim um homem. O problema é que também fez da minha mulher um homem. E da prima Leninha outro homem (aliás, ela agora prefere que a tratem por Manuel ou então por “gostosão”, mas isso são outras conversas). Mas vocês percebem a ideia. Muitas vezes, uma provação parece mais difícil à partida do que realmente é.
O Sporting vai jogar na Escócia num ambiente aparentemente infernal. Quem já jogou no Ibrox fala invariavelmente dos primeiros 15 minutos, momento decisivo do jogo, durante o qual importa não esmorecer com a pressão desenfreada dos escoceses e muito menos enfardar logo um golo.
Tive um colega de turma que se fartava de gabar a coragem e perseverança que “Átila... o Único” revelou ao tentar vencer os francos. É verdade que ele era fortemente espancado de cada vez que mencionava "Átila, o Único". E é verdade também que, apesar de esmurrado, ele continuava a sorrir candidamente, como se tivesse uma doença mental incurável. Chamávamos-lhe carinhosamente "o escroto". De alguma forma, o seu exemplo inspirou-nos. Como? Não sei bem. Mas inspirou-nos. E, não fosse o facto de ele insistir também em recitar provérbios do “Lalai Lama, do Tibete”, provavelmente tê-lo-íamos deixado em paz a certo ponto.
Serve a recordação para inspirar, de alguma maneira, os jogadores do Sporting a poucas horas do jogo de Glasgow. Quando entrarem no Ibrox Park, seguir-se-á a tradicional rotina de todos os jogos. De rostos focados na tarefa que têm pela frente, pousarão o casaco oficial no cabide do balneário. Dois terços deles removerão depois as bandeletes e o Gladstone a placa dentária. Lentamente, como num ritual religioso, vestirão as peças do inimitável equipamento verde e branco. Seguir-se-á a palestra. Meia dúzia de tolices encorajadoras. Aquecimento. Regresso ao balneário. Computadores ligados. Ler o Mãos ao Ar. Voltar ao relvado. Enfim, o costume.
É a essência da mensagem de hoje, rapazes. Mais do que cruzar os dedos para pedir sorte, cruzem os esfíncteres . Não se borrem. O resto virá por acréscimo.

Memória

A história da semana é indiscutivelmente o início da marcha da justiça desportiva, que parece avançar para a acusação ao FC Porto e ao Boavista num processo aparentemente inspirado nas escolhas da amiga Olga, dos primórdios saudosos da TVI. Os dragões, ao que parece, têm direito de escolher se querem perder seis pontos já esta época (sanção inofensiva face ao seu avanço no campeonato) não interpondo recurso da decisão ou, recorrendo, podem insistir na sua inocência, mas arriscam a mesma sanção na próxima temporada, complicando nova campanha vitoriosa.
Lêem-se estes cenários e é impossível não recuperar a memória do colagénio da apresentadora chocalhando um jogo de chaves na mão direita e um maço seboso de notas na mão esquerda, perante o entusiasmo febril de um grupo de espectadores arrebanhados provavelmente numa comunidade agrícola, daquelas que são pagas pelo governo para não plantar alfarroba ou noz-moscada. As chaves... O dinheeeeiro.... Já lá diz o povo que é curioso o destino do homem que insiste em fazer das… strippers coração.
É verdade que nada garante que a Liga venha a confirmar a sentença após recurso, mas é tentadora a ideia de apagar já o processo com uma pequena palmada na mão, antes que alguém se lembre de juntar mais qualquer coisa ao castigo, como a detenção dos alegados corruptores ou outra coisa desagradável dessas. Se algum dia se confirmasse, aliás, a prisão de Pinto da Costa entraria de rompante para o ranking das prisões mais famosas de Portugal, logo a seguir à prisão de Carlos Cruz, à prisão de Paulo Pedroso e à prisão de ventre.
Mesmo nesse cenário afastado, imagino que nem tudo estaria perdido. Recordo que este é o país em que, mesmo Vale e Azevedo, que fez como no bingo e acumulou linhas de infracções a todos os artigos previstos no código, acabou por ser agraciado com meros quatro anos de pena de prisão. Mais do que isso levou Simão Sabrosa, que cumpriu seis anos de Benfica!

P.S.: Terão de me desculpar, mas esre post foi escrito no Alfa, a caminho de Braga. No comboio, já se sabe, a letra sai sempre tremida.

Segunda-feira, Março 31, 2008

Afinal, o gordo safa-se



Calo-me respeitosamente. Não voltarão a ler neste espaço as palavras "badocha" e "filho do senhor António" na mesma frase.
A partir de ontem, ganhou direito a ser apenas o "Miguel".

Quinta-feira, Março 27, 2008

A arrogância deste menino


P: Oh Paulo Bento, mas porque é que não jogas em 4-3-3?
R: Porque o nosso melhor avançado dos últimos anos, o Liedson, sente-se pouco à vontade nesse sistema. Precisa de mobilidade e de apoio no ataque. Rende pouco isolado na frente.
P: Oh Paulo, e porque é não jogas em 4-3-3 assimétrico?

Ó Lobo, e se fosses bardamerda?

Quarta-feira, Março 26, 2008

Sem sentido

O velho exemplo é repetido até à exaustão pelos melhores especialistas em processo penal que a nação tem para oferecer e também pelo Moita Flores. Al Capone foi encarcerado, não por crimes de sangue, mas pelos crimes de evasão fiscal. Diz-se, aliás, que o seu lapso imperdoável foi não ter discriminado o custo da banda filarmónica que tocou na sua boda nos impressos que o Teixeira dos Santos agora nos obriga a preencher.
Pelo mesmo raciocínio, Pinto da Costa pode ser engavetado, não por criar uma rede nauseabunda de corrupção de árbitros, mas por subverter um obscuro jogo entre o Beira-Mar e o FC Porto, disputado “só” na temporada em que os «dragões» foram campeões europeus.
Surpreende que, depois de escrutínio tão rigoroso às contas e movimentos do presidente do FC Porto, a super-equipa de investigação tenha produzido isto: um encontro de hora e meia com um desgraçado de um árbitro que ninguém conhece e que tem todo o ar de quem desconhece o lado certo para abordar a utilização de um bidé. À escala, dá a impressão de que, depois de acusar Pinto da Costa de desenvolver armas de destruição maciça, Maria José Morgado se orgulha de levar o presidente do FC Porto a julgamento por posse de arco e flecha. Também está bem, mas impressiona menos.
Não me interpretem mal. Será divertido assistir ao julgamento e descobrir a vocação judicial de José Manuel Delgado em “A Bola”, fiel caixa de ressonância do pensamento de Vieira, embora sem os “huums” e “hamms” que tanto cativam no filósofo original. A feira que por certo se levantará à porta do tribunal será lúdica e instrutiva. Basta ler o comentário de Mano Nunes, à época presidente dos aveirenses, para adivinhar o que aí vem. Diz o senhor que não se lembra bem do jogo, mas que o Beira-Mar foi espoliado seguramente porque isso acontecia sempre. Mano Nunes é aquilo que o jargão técnico dos advogados chama “uma testemunha imbecil”, mas que o Novo Código Penal renomeou como, e cito, “um consumo injustificado de oxigénio”.
O processo teve, pelo menos, o mérito de reconciliar o presidente do FC Porto com a devoção religiosa que os seus biógrafos tanto aclamam. Ontem, no Rádio Clube Português, lá falou da santinha da Ladeira, da virgem dos descamisados e dos sonos perturbados por pesadelos inclementes que estarão guardados para os seus críticos. Esperava mais. Pinto da Costa parece ter perdido a verve de outrora, a habilidade inigualável para baralhar qualquer discussão e reapresentá-la subordinada à sua argumentação (lembram-se como a penhora fiscal de 1995 se tornou o gozo da nação com a retrete do ministro Catroga?) O presidente do FC Porto fez lembrar a donzela medieval que, colocada perante a inevitabilidade de passar pelos garfos do vilão, lhe lembrou que ele poderia tomar-lhe o corpo, mas nunca o espírito e a mente. Humm? Então, está bem!
Se me permitem a expressão de um desejo, gostaria de ver Pinto da Costa livre deste processo pouco sério em que se tornou o Apito Dourado. Livre desta Carolina que, como Leonor Pinhão ajuizadamente lembrou, não é moça para mentir às três pancadas. (No caso dela, proponho apenas uma, seca e forte, na nuca, como se faz aos coelhos.) Dizia eu que espero ver Pinto da Costa absolvido desta acusação fundamentada com saliva. E, depois, já livre, mas seguramente chamuscado pelo caso, espero vê-lo abdicar pelo próprio pé de qualquer cargo no futebol português. A bem do seu legado.
E, já agora, para ver se o Sporting ganha uma me**da qualquer.

Sexta-feira, Março 14, 2008

Elaborando (ainda melhor) a proposta de segunda-feira


Há quem defenda erradamente que uma equipa de futebol profissional se limita a uma manada de animais de carga sem brio nem honra, bestas de trabalho só despertáveis à força do chicote e maus tratos. Essa perspectiva, reconheçamos, é ridícula, e eu tenho lutado muito por combatê-la.
A escola de pensamento que perfilho é bem diferente: uma equipa de futebol engloba um caleidoscópio de sensibilidades e talentos únicos, delicadas plantas exóticas que devem ser podadas cautelosamente pelo mais cuidadoso dos jardineiros. Como todos sabemos das nossas leituras de Goethes Naturwissenschaftliche Schriften, mesmo o mais resistente morrião-dos-xistos não sobrevive à geada. (Refiro-me, claro está, à edição de Weimar, Abtheilung II e nunca, como poderiam supor os mais distraídos, a Über die Anordnung der naturwissenschaftlichen Schriften Goethes. Aliás, seria preciso ser muito tolo para confundi-las!).
Ao invés da metáfora do empedernido condutor de uma junta de bois, que só se faz respeitar com recurso à força bruta, o treinador da equipa profissional de futebol é, a meu ver, um pediatra dedicado, que passa pó-de-talco apaixonadamente no nalguedo assado dos seus jogadores, que encosta os lábios no abdómen dos petizes e sopra vigorosamente, imitando o barrido de um elefante. E Paulo Bento é – não o neguemos – esse homem.
As estatísticas não mentem: um em cada quatro portugueses sofre de varizes. E isso reflecte-se naturalmente na marcha periclitante da nação, que coxeia quando deveria marchar, que arqueia quando deveria esticar, que tem até dificuldade em retirar a arreliadora cueca insolentemente enfiada na gaveta. Que tem isto a ver com o futebol do Sporting? Talvez muito. Talvez pouco. Mas parece-me significativo.
Que se renove já o contrato do Paulo Bento – é o que eu sugiro.
Pelo menos, até segunda-feira à noite.

Segunda-feira, Março 10, 2008

Elaborando melhor a proposta de ontem


Quando se discute uma equipa de futebol, utiliza-se normalmente a metáfora de uma orquestra, repleta de artistas, sensibilidades estéticas e harmonia criativa. Nesta escola de pensamento, jogadores e treinadores são descritos como maestros e violinistas; os jogos transformam-se em óperas ou sinfonias; os golos são notas de encantamento, como se tiradas da lira de Orfeu.
Pessoalmente, defendo outra escola de pensamento: o plantel de uma equipa profissional resume-se a um conjunto de juntas de bois, como o magnífico animal do postal de cima (o animal da esquerda, claro está; o da direita parece impróprio para consumo!)
Animal obstinado, o boi de raça mertolenga desta história viveria satisfeito se dividisse os seus dias pelas tarefas de comer, dormir e ocasionalmente galgar o quadril de uma charolesa mais apetitosa. Infelizmente para ele, o seu desempenho é coordenado pelo condutor da junta. Da natureza e autoridade do condutor resulta naturalmente o sucesso do projecto.
Paulo Bento foi, durante época e meia, um razoável condutor da manada que veste a inimitável malha verde e branca e a que alguns teimam em chamar plantel. Impôs – com ou sem razão – a sua autoridade. Fez estalar o chicote quando achou que podia, escolhendo uma ou outra vaca sagrada (chiquíssima, a analogia! Chiquíssima!) como exemplo. Afastou os bois (e, no caso do Carlos Martins, o nome aplica-se com parcimónia) mais indolentes. E, durante ano e meio, entre Outubro de 2005 e o Verão de 2007, foi respeitado.
Um dia, porém, o boi compreende que a vida é particularmente injusta, na medida em que é ele que alomba diariamente, ao passo que o condutor assenta a ginja na junta e deixa-se alegremente conduzir. Nesse dia fatídico, a que os marxistas chamam apropriadamente a tomada de consciência, o boi revolta-se. Amolece. Deixa de marchar. Por muito que o chicote lhe estale no lombo, já não surte efeito. O respeito esfumou-se.
Nesse momento decisivo, há duas hipóteses: despachar o condutor ou despachar as animálias. Como qualquer Sousa Veloso reconhece, é muito mais fácil – e barato – trocar de chicote do que de bestas de cargas.
E amanhã, com outro tipo de liderança, a manada compreenderá que terá de se mexer pesadamente outra vez…

Domingo, Março 09, 2008

Obviamente, demitam-no!

Quinta-feira, Março 06, 2008

Onde estão o Milan e o Celtic?

Se há coisa que me irrita é aquela velha questão de uma mentira mil vezes repetida acabar por ser verdade. E há duas "verdades" inverdadeiras que perseguem os sportinguistas como um condenado às galés, proferidas por prosélitos de outros clubes: a de que o Sporting é uma vergonha nacional sempre que vai às competições europeias e que, há três anos, não fez nenhum ponto na fase de grupos da Liga dos Campeões; e aquela de que, na última vez que foi campeão nacional, o Sporting contabilizou (já li e ouvi diversas versões) entre 22 a 25 grandes penalidades a seu favor. Revejam os manuais e regressem às aulas para que seja reposta a verdade dos factos.
Mas a razão de ser deste post tem a ver com as competições europeias deste ano, independentemente do que acontecer na eliminatória com o Bolton. Gozaram-nos, sobretudo os "encarnados" porque, uma vez mais, não passámos da fase de grupos da Champions, a despeito de nos ter calhado em sorte clubes como o Manchester United e a Roma - que, diga-se, sofreram a bom sofrer em Alvalade. Mas não deixa de ser curioso que nesta fase, o Man. United e a Roma estejam nos quartos-de-final da Liga dos Campeões, ao passo que as equipas que passaram no agrupamento do Benfica - Milan e Celtic - já ficaram pelo caminho. A verdade é como o azeite: vem sempre ao de cima.

Quarta-feira, Março 05, 2008

Auto-promoção descarada



Revista "J" de 2 de Março de 2008. Também tem a Sara Kostov na capa, mas acredito que os leitores leram sobretudo esta referência. Antes que nos acusem de compadrios e arranjinhos, afianço que a referência não foi paga. Quer-se dizer: mandámos a Sara Kostov de brinde ao director de "O JOGO", mas, tirando isso, não subornámos ninguém. Aliás, ele foi muito simpático e mandou-nos um cartão, onde se lia em letra tremida "Tomei conhecimento", como fez o Telmo no Ministério do Turismo.

Agradecimento ao El Pibe pela referência e pela imagem. Mal a Sara se arranje, já ta mandamos também, El Pibe.

Quinta-feira, Fevereiro 28, 2008

Sugestão conceptual para as nossas claques



«Purovic é fulminante. É fulminante. É fulminante.

Purovic é estonteante. É estonteante. É estonteante.
(repetir coro)

Purovic marca com a tola. Marca com a tola. Marca com a tola.

E também de carambola. De carambola. De carambola.
(repetir coro)

Ele vem do Montenegro. Do Montenegro. Do Montenegro.

Joga à bola com' um labrego. Com' um labrego. Com' um labrego.»

A princípio, parece um pouco estúpido. Mas depois tem tudo para ser um clássico. Pensem nisso.

Segunda-feira, Fevereiro 25, 2008

Não fui eu...



A essa hora eu estava num curso de bordado. Para além do mais, não gosto de usar capuzes. Fazem-me comichões na faringe.

Domingo, Fevereiro 24, 2008

Canalhice...

... a TVI escolher o Rui Patrício para comentar as incidências do jogo.

Falta de amor próprio...
o Rui Patrício aceitar!

Sexta-feira, Fevereiro 15, 2008

O Sá está de volta!

– Queres ver a minha colecção de borboletas?
Poucos contestarão que esta é a melhor linha de engate de todos os tempos. Recorrendo a ela, muitos atraíram inocentes donzelas ao seu covil, enganando-as com a perspectiva de observar in loco os mecanismos de sucção das peças bucais destes invertebrados. Quem as censura? O apelo de um lepidóptero é irresistível e, mesmo a mais inexpugnável fortaleza feminina, se persuadida durante horas, pode ser superada com esta técnica. Pessoalmente, eu prefiro dar-lhes uma marretada na cabeça, que dá muito menos trabalho.
Para alguns tibetanos, a borboleta, a coruja e o búfalo são animais sagrados, mas a gente desculpa-os. Estão fechados nas montanhas e está bem documentado que faz muito mal a exposição prolongada à altitude, ao frio gélido da montanha e ao alpinista João Garcia. Seja como for, pela sua capacidade de metamorfose, a borboleta tem lugar cativo na maior parte dos mitos religiosos, muitos dos quais se inspiram nela para prometer a reencarnação.
Eu não costumo acreditar nestas coisas, mas, ontem li uma “Nova Gente” num consultório e a argumentação da reencarnação pareceu-me credível. E não me custa a acreditar que, se um Valentim Loureiro contemporâneo pode amanhã transformar-se num exuberante escaravelho-bosteiro (aquilo a que os informáticos chamam um “update”), outras reencarnações podem ser possíveis.
Submeto, pois, aos senhores que Simon Vuckcevic é a reencarnação de Ricardo Sá Pinto. É verdade que Sá Pinto ainda não morreu, o que costuma complicar bastante as reencarnações, pois dá muito mais jeito que o sujeito a reencarnar já esteja frio e mole, como o presidente do Sporting. Mas, enfim, façam-me a vontade.
Experimentem olhar do topo da bancada para Vuckcevic (eu, que tenho a gamebox dos pobrezinhos, lá nos confins das últimas filas, não tenho mesmo outro remédio que não seja olhar bem de cima. Aliás o meu lugar é tão mau que estou quase ao lado dos jornalistas do “Record”. Bleerk!). Em campo, o montenegrino é a personificação da coragem. Não é particularmente inteligente na gestão do esforço, mas deixa a pele em cada jogada. Faz questão de demonstrar ao público e ao adversário que um mero centímetro quadrado ganho ou perdido pode ser decisivo para o resultado final.
O público, claro, reage. Vê nele a extensão da bancada, o músculo que gostaríamos de ter no relvado. Vuckcevic joga como um adepto – é o melhor elogio que lhe posso fazer. Como Sá Pinto, marca golos decisivos. Como Sá Pinto, corre quilómetros. Como Sá Pinto, luta pelo prazer de lutar. Como Sá Pinto, inspira os colegas pelo exemplo. Como Sá Pinto, magoa-se estupidamente num movimento escusado.
Um dia, passou um pensamento mau pela moleirinha do Sá Pinto e pespegou duas galhetas no Artur Jorge, então disfarçado de seleccionador nacional. Se os tibetanos tiverem razão e a reencarnação reproduzir a rotação sagrada, talvez Vuckevic faça o mesmo.
Pelo menos, ríamo-nos.
É que o seleccionador de Montenegro é o Filipovic.

Quarta-feira, Fevereiro 06, 2008

Leo sénior

Na sede de uma conhecida claque verde-e-branca…
Ultra # 1: Passa a bandeira, Fernando.
Ultra # 2 [em esforço]: Rggghnnn… Não posso.
Ultra # 1: Passa a bandeira, homem.
Ultra # 2: As cruzes, menino. Doem-me as cruzes. Nuno, segura tu no estandarte. Nuno. [grita] Nuno!
Ultra # 3: …
Ultra # 1: O gajo está mouco, coitado. Já não ouve. Deixa cá a bandeira, levamos só os cachecóis.
Ultra # 2: Vamos então. É só levantar-me. Rggghnnn. As costas já não são o que eram. Alguém viu a minha muleta?
Ultra # 1: Está ali, ao lado da minha prótese de madeira.
Ultra # 2: Um é surdo, o outro é coxo. Estou bem arranjado! É verdade, como é que está a tua espondilose?
Ultra # 1: Ai menino, dói-me como se me espetassem punhais. No outro dia, no centro de dia, nem consegui jogar dominó.

No estádio…
Ultra # 2: Dá-me uma broca.
Ultra # 1: Já não trago disso para o estádio, menino.
Ultra # 2: Por causa da polícia?
Ultra # 1: Por causa do meu médico. Diz que interage com os comprimidos para a gota e cria-me alucinações.
Ultra # 2: Mas que claque vem a ser esta, Nuno? Hein, Nuno? NUNO? [grita]
Ultra # 3: …
Ultra # 1: O gajo está mouco.
Ultra # 2: Já sei, já sei. Ui, que frio que está. Alguém trouxe uma mantinha? Queria pôr uma mantinha sobre as pernas?
Ultra # 1: Eu trouxe. Somos ou não somos uma grande claque?
Ultra # 2: E farnel? Há farnel? Gostava de trincar qualquer coisa.
Ultra # 1: Eu trouxe uns filetes num tupperware. Tenho de comer coisas moles porque os dentes já não vão para novos.
Ultra # 2: Ai menino, a quem o dizes. Já vou na segunda placa. O meu neto mais novo partiu-me uns dentes praticamente novos.

Mais tarde…
Ultra # 2: Olha, olha, foi golo. Aquele não é o Yazalde?
Ultra # 1: Esse já não joga, menino. Este é o Liedson.
Ultra # 2: Ai os meus olhos… Eu tinha uma visão de lince, menino. De lince. Mas porque é que ele está só com um braço levantado?
Ultra # 1: Esse é o fiscal de linha. Parece que anulou o golo.
Ultra # 2: Que maçada! Eu levantava-me para protestar, mas tenho os joelhos cheios de líquido.
Ultra # 1: Cantamos um tifo de protesto?
Ultra # 2: A ver se não me esqueço da letra, que a memória agora prega-me partidas. Vamos embora, Sport… aaaaiiii.
Ultra # 3: O que tem o Fernando?
Ultra # 1: Parece que deslocou uma vértebra quando se levantou para cantar.
Ultra # 3: Hum?
Ultra # 1 [grita]: PARECE QUE DESLOCOU UMA VÉRTEBRA.
Ultra # 3: Que maçada, que maçada!
Ultra # 2 [pensativo]: Tenho estado cá a pensar. Acham que 20 anos à frente da claque será de mais? Será que estamos gastos?
Todos [em coro]: Não!

Segunda-feira, Fevereiro 04, 2008

Ctrl + Alt + Delete

Reiniciar a temporada, por favor.
Pelo menos, e isso que eu faco quando estou a jogar CM2 e perco em Belem.
Nao se pode cair mais fundo do que isto.

(post sem acentos ortograficos porque o blogueiro esta na estranja a lutar pela vida)

Sexta-feira, Fevereiro 01, 2008

Ganhar à Benfica


Eu sou ateu. Pelo menos, era. Até domingo passado.
A Bernardette, em Lourdes, viu uma senhora vestida de branco em 1858 e jurou a pés juntos que o vulto de Maria lhe ditara três segredos: que a comuna de Paris estava por um fio; que o bacalhau à gomes Sá ganha mais gosto com coentros; e que o 4-4-2 é bastante vulnerável se a equipa adversária jogar com apenas um médio de contenção. Bernardette, naturalmente impressionada, tornou-se crente.
Eu, que sou mais sofisticado, precisei de uma demonstração de hora e meia. Durante 90 minutos, a equipa do Sporting foi tratada pelo adversário como o calceteiro normalmente trata as pedras da rua: com marretadas persistentes e dolorosas. Mesmo assim, ganhámos. Aliás, jogos houve no passado em que bastou uma oportunidade em todo o jogo para os senhores marcarem o golito da ordem e arrebatarem a vitória, sem honra nem glória. Desta vez, não. E eu fiz como o comentador Rui Santos: entre atribuir um pedaço de mérito à exibição do Sporting, admitindo assim que Paulo Bento até acerta as agulhas uma vez por outra, e entregar toda a responsabilidade pelo resultado à fortuna, ao acaso ou à virgem, preferi a virgem. Sempre faz companhia.
Experimentei assim, pela primeira vez em tantos anos de sofrimento, a sensação de ganhar à Benfica. Confesso que é muito agradável. A teoria que sustenta que as recompensas sabem melhor depois de árduo trabalho não passa de um mito capitalista, que visa impedir que os meninos copiem ou que os pastores abusem repetidamente das suas ovelhas. Por isso, adoptei novo lema: façamos ovelhas moucas… ahem… orelhas moucas e paremos de assobiar o Farnerud. Habituem-se, já lá dizia o Vitorino: ganhar à Benfica é muito reconfortante.

Quarta-feira, Janeiro 30, 2008

Jornalismo. E do sério.


Manchete do "Record" de hoje: «Veloso dá troco a Scolari. "Graças a Deus, vou aos sub21"»


Corpo da notícia: «O médio do Sporting pareceu mesmo feliz por o seu nome fazer parte das escolhas de Rui Caçador nos Sub-21. “Graças a Deus fui convocado. É sempre uma honra representar Portugal e vou dar o meu melhor”, disparou, com fair play, o jovem jogador.»

Cortesia: MSI

Quinta-feira, Janeiro 24, 2008

Pandora & Rui Santos



De acordo com a mitologia grega, Pandora foi a primeira mulher criada no mundo. Fosse porque Zeus quis punir os homens pela ousadia de Prometeu, que roubara o segredo do fogo, fosse porque os deuses começavam a fartar-se de rabos peludos, a verdade é que lá se decidiram a fazer uma senhora. Como em todos os chavascais, toda a gente quis meter a colher: Hefestos moldou-lhe a forma; Afrodite cedeu-lhe beleza; Elpís deu-lhe gases; Apolo concedeu-lhe talento musical; Deméter ensinou-a a cultivar; Atena deu-lhe habilidade manual; Hermes deu-lhe um apalpão; Poseidon fez como eu faço no Natal quando fico desesperado e comprou-lhe um colar de pérolas caríssimo; Zeus deu-lhe a personalidade e uma caixa. Epmeteu não lhe deu nada e não percebeu por que motivo toda a gente ficou ofendida.
Mas falemos da caixa. Na caixa, concentravam-se todos os males do mundo: a velhice, a doença, a inveja, a mentira, a guerra, a unha encravada e o penteado do Rui Santos. Estava ali, de certa forma, uma minidirecção do Sporting.
Depois de lhe terem dito que não podia abrir a caixa, Pandora, naturalmente, não resistiu. Um fluxo destes males irrompeu pela caixa com tal velocidade que Pandora rapidamente a fechou. O penteado de Rui Santos emaranhava perigosamente para fora do recipiente, e os restantes males expandiram-se pela atmosfera como o passivo do Sporting. Apenas uma das tormentas permaneceu fechada na caixa: o mal que acaba com a esperança. É esse o tema da discussão de hoje.
Submeto à apreciação dos senhores que, se Pandora tem mantido a caixa aberta, hoje não haveria adeptos do Sporting. Mas ela fechou-a. E bem podem subir o preço do leite, manter o Purovic em campo, fingir que abatem o passivo, contratar chineses para os juniores ou abrir academias em Pretória, que nós temos esperança para dar e vender. Esperamos e sonhamos com a glória. Em sonhos, aliás, vejo-me com a Taça UEFA. Com a Taça de Portugal. Com a Taça da Liga. Com a Liga BWin. Também me vejo com a Linda Evangelista, mas é mais raro.
Há fundamentados motivos para ter esperança. Em primeiro lugar, porque já batemos no fundo e agora será sempre a subir. Em segundo lugar, porque o Derlei está quase bom e isso só pode querer dizer que só voltaremos a ver o Purovic quando for preciso substituir aquela barreira metálica ferrugenta que serve para treinar livres nos treinos. Em terceiro lugar, porque o Jesualdo, desde que começou a carreira de treinador, no final do Jurássico Intermédio, nunca ganhou em Alvalade.
Com tanta canalhice que anda pelo futebol, a malta, às vezes, esquece-se que ainda há gente boa. O Jesualdo é uma dessas almas pias. Mal entra em Alvalade, abre o cabaz e enfarda. Enfarda pela Académica, pelo Alverca, pelo Estrela, pelo Braga, pelo Benfica e agora, benza-o Deus, enfardará pelo FC Porto.
Verdade seja dita que o Sporting também não tem fama de ingrato e não são poucos os adversários que este ano já agradeceram a amabilidade de uma equipa que não pressiona, não corre e remata só em caso de absoluta necessidade.
Mas já que estamos a falar disto, importa dar a palmatória e reconhecer que não há gente no futebol português mais carinhosa do que a do Belenenses.
Esses, para além de serem bonzinhos, até oferecem pontos.

[post # 400 do Mãos ao Ar]